• Carlos Eduardo Mello

Fato COVID-19: A inadimplência no Ensino Superior está subindo! O que pode ser feito?


Foto: © ffikretow@hotmail.com / Shutterstock


Há algumas semanas, publicamos um artigo sobre os possíveis impactos do COVID-19 na captação de alunos para o próximo ciclo. Está interessado em entender melhor, clique no link abaixo.


Quais serão os impactos do COVID-19 no próximo ciclo de captação de alunos?


Nos próximos parágrafos, abordaremos um tema igualmente importante, já vivenciado pelas Instituições de Ensino nos últimos meses, o aumento da inadimplência. No dia 17 do mês passado, o Instituto SEMESP divulgou que o índice de atraso dos alunos sofreu crescimento de 71,1%, atingindo o nível de inadimplência de 25,5%, frente aos 14,9%, apurado no mês de abril de 2019. Este número pode sofrer variação regional, mas serve como um bom parâmetro para análise.


Alguns especialistas do segmento de cobrança do setor educacional dizem que esse índice está em 30% e pode ser ainda maior no futuro próximo. Seguindo o racional apresentado pelo Rui Gonçalves da Quero Educação, no webinar transmitido no dia 23 de abril, se considerarmos que 1/3 dos alunos não realizaram o pagamento das mensalidades, em um mercado de mais de 6 milhões de matriculados no ensino superior, a uma mensalidade média de R$ 500,00, o valor total não recebido pelas instituições de ensino pode chegar próximo a R$ 1 bilhão. Sabemos que este número é de magnitude bastante elevada e choca, pois são 2 milhões de alunos que estão apresentando dificuldade em honrar os seus compromissos financeiros junto as IES, mas não é momento para desespero (sei que parece não fazer sentido). Vamos discorrer um pouco sobre o tema e tentar auxiliar em caminhos possíveis para mitigar os impactos.


Desemprego e inadimplência


Os motivos para um cliente estar inadimplente são diversos e particulares, mas podemos avaliar alguns que normalmente são os mais representativos quando analisados massivamente, ainda mais em um cenário como o que estamos vivenciando.


Vale destaque ao desemprego, pois normalmente é um motivador representativo e neste momento, pode estar sendo potencializado pelos impactos do isolamento social em diversos mercados. Até este momento, esse número ainda é difícil de ser analisado, mesmo sabendo que as demissões em diversos setores da economia, têm sido inevitáveis. De acordo com o último Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) constatou um aumento de 1,3 ponto percentual (p.p.) no primeiro trimestre do ano de 2020 frente ao trimestre anterior, atingindo a taxa de desemprego de 12,2%. Essa variação já era esperada devido as contratações temporárias no último trimestre do ano anterior e representa pouco a crise econômica causada pelo COVID-19, pois a maioria dos estados decretaram isolamento social a partir da segunda quinzena de março.


De acordo com os pesquisadores do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas), divulgado pela Folha de São Paulo em matéria de 12 de abril, um cenário factível de projeção frente ao encolhimento esperado do PIB (Produto Interno Bruto), é de uma taxa de desemprego no final do ano de 2020 de 17,8%. Esse índice representaria um crescimento de 63,3% quando comparado com os 10,9% apurado em 2019. Se fizermos uma comparação com o estudo divulgado pelo SEMESP, existe um alinhamento no direcional e evolução desse crescimento. Os pesquisadores do Ibre fazem projeções em alguns cenários e levam em conta algumas premissas, mas vale ressaltar que um cenário pessimista, caso ocorra uma retração maior do PIB de 7%, não distante das projeções de alguns bancos, a taxa de desemprego pode ser de 23,8% com 12,6 milhões de novos desempregados. Este índice é o dobro do registrado antes da pandemia e não é impossível de ocorrer, quando observamos as diversas incertezas do período.


Vou utilizar aqui uma analogia apresentada pelo Flavio Rabelo da Quero Educação, bastante coerente e que poderá ajudar as IES a estruturarem suas projeções. No gráfico a seguir, é possível avaliar dois indicadores do mercado, inadimplência até 30 dias do ensino superior desenvolvido pelo SEMESP e o índice de desemprego apurado pelo IBGE. Podemos observar que ambos índices sofrem movimentos muito parecidos e podemos considerar que há uma correlação entre eles (R-quadrado ~ 90%). Apesar de existir uma defasagem temporal entre os indicadores (a variação no desemprego não necessariamente impacta a inadimplência no mesmo intervalo de tempo), servem como um excelente insumo para projeção.


Gráfico 01: Inadimplência até 30 dias x Desemprego

Fonte: Quero Educação | O impacto da COVID-19 no Ensino Superior Brasileiro


Medidas Provisórias 927/2020 e 936/2020


Com o objetivo de promover auxílios emergenciais durante o período de pandemia, o governo editou duas medias provisórias que flexibilizam as relações trabalhistas. A primeira Medida Provisória 927/2020 foi implementada no dia 23 de março, já a MP 936/2020 no dia 1º de abril. Cabe uma atenção especial a esse assunto, pois representa um impacto direto na renda de algumas pessoas, consequentemente estará relacionado com possíveis atrasos de mensalidades, tendo em vista que as famílias precisarão rever suas prioridades nesse período.


Suspensão temporária do contrato de trabalho


Foi permitido as empresas dispensarem seus funcionários pelo prazo de 60 dias, garantindo uma estabilidade aos colaboradores do mesmo período após o retorno, ou seja, se as empresas aderirem a essa medida, suspendendo a jornada de seus funcionários, eles terão uma garantia de 120 dias. Existirá um impacto direto na renda das famílias, pois o governo garantirá o seguro-desemprego nesse período de suspensão, com um teto de R$ 1.813,03, tendo como consequência a redução salarial de quem ganhava acima desses valores. Empresas com faturamento anual até R$ 4,8 milhões, que dispensarem seus funcionários, 100% do seguro desemprego será de responsabilidade do governo. Empresas com faturamento anual superior a R$ 4,8 milhões, o governo pagará 70% do seguro-desemprego e a empresa precisará arcar com os 30% restantes. De qualquer forma, vale o alerta do impacto direto no salário nominal das pessoas.


Redução proporcional de jornada de trabalho e salarial


Pelo período de 90 dias, as empresas puderam aplicar reduções de jornadas de trabalho e salário e preservar o valor da hora de trabalho. As reduções mais comuns foram: 25%, 50% e 75%. Essa medida também tem uma coobrigação do governo no seguro-desemprego, mas assim como a anterior, existe um teto para essa compensação de R$ 1.813,03. As empresas que aderirem a esse programa, precisarão garantir estabilidade aos funcionários pelo mesmo período, ou seja, por mais 90 dias. Dessa forma, a estabilidade total será de 180 dias. Da mesma maneira que a medida anterior, apesar de existir a garantia do governo para a fatia de redução de salário, em alguns casos, a compensação do governo não cobrirá 100% da redução.


Saúde física e mental


É muito comum, durante um processo de cobrança, em tempos sem pandemias, ouvir clientes informarem que o motivo pelo não pagamento está atrelado a doenças na família. Há uma compreensão sobre o fato, pois despesas médicas e com medicamentos são bastante elevados no Brasil, sem contar o abalo psicológico agregado. Em épocas como a que estamos vivendo, esse fator está potencializado, sem sombra de dúvidas. O acompanhamento da evolução contaminações nas praças em que as IES possuem campi servirá como uma boa base de comparação com os registros realizados pelos alunos. Deixo nesse link um endereço do G1 que permite acompanhamento atualizado dos casos de infecções por estado. O Brasil, até o dia 08 de maio, registrou 137.271 casos infectados pelo COVID-19 e o crescimento no país ainda está seguindo evoluções exponenciais.


O isolamento social, aliado a incertezas e inseguranças também afetam o lado psicológico de todos. Este momento é delicado e exige um tratamento unitário e humanizado. Ouvir cada aluno empregando a empatia, pode ser uma solução eficaz. A Quero Educação realizou uma pesquisa com aproximadamente 4.491 alunos de Instituições do Ensino Superior com o objetivo de capturar os sentimentos nesse momento de crise. Podemos observar no gráfico abaixo o resultado bastante alarmante. Quase 85% dos entrevistados possuem uma percepção média ou alta a perda de renda para os próximos meses. Ou seja, frente as incertezas dessa pandemia, a grande maioria dos alunos acredita que a renda será afetada. Esse fato apenas corrobora para uma atenção ao lado psicológico e tratamento próximo a cada aluno.


Gráfico 02: Risco de Perda de Renda

Fonte: Quero Educação | Como o COVID-19 está afetando os alunos e potenciais alunos


COVID-19: Conclusões sobre inadimplência no Ensino Superior


  • As instituições de ensino já estão sentindo o impacto na inadimplência. De acordo com o SEMESP, esse aumento foi de 71%, atingindo atrasos de até 30 dias de 25,5%. Outros especialistas de cobrança do setor, mencionam que este indicador esteja em 30%.


  • Apesar de não ser possível avaliar os impactos causados pelo COVID-19 na taxa de desemprego, devemos esperar um crescimento acentuado nos próximos meses. Como foi observado, existe correlação entre esse indicador e o índice de inadimplência.


  • As medidas provisórias editadas pelo governo nos últimos meses, impactarão diretamente na renda de algumas famílias devido à redução ou suspensão da jornada de trabalho e consequentemente dos salários.


  • Cada estado está adotando as suas medidas para isolamento social. Em alguns casos a quarentena foi prorrogada até o final de maio, como ocorreu com São Paulo. Os casos de infecção pelo COVID-19 ainda estão apresentando crescimento exponencial.


  • A insegurança frente as incertezas presentes na economia e sistema de saúde estão afetando diretamente a percepção dos alunos, podendo ser comprovado na pesquisa realizada pela Quero Educação.


COVID-19: O que pode ser feito com esse crescimento da inadimplência?


Entendemos que até esse momento do artigo, apenas relatamos os fatos que estão sendo acompanhado em todos os noticiários, mas fica uma dúvida: O que podemos fazer para combater essa crescente da inadimplência e as consequências a ela atreladas? Para isso, listamos abaixo algumas dicas que consideramos válidas, levando em conta a nossa ampla experiência com gestão de risco, além das curadorias que realizamos nesse período de crise. Vale ressaltar que nem todas são viáveis de serem implantadas, mas cabe uma análise cuidadosa. Se surgir algum ponto que tenha interesse em debater, nos colocamos à disposição.



  • Cálculo detalhado dos níveis de inadimplência da própria instituição, retroagindo os indicadores para os últimos 18, 24, 36 meses. Sem compreender o comportamento dos índices da IES antes da pandemia, fica difícil construir cenários. O gráfico abaixo, desenvolvido pelo SEMESP, serve como um bom parâmetro para construção dos indicadores: Até 30 dias, Até 90 dias e Acima de 90 dias.

Gráfico 03: Inadimplência no Ensino Superior - Brasil

Fonte: SEMESP| Pesquisa de inadimplência 2018


  • Projetar três cenários, um otimista, um realista e outro pessimista para os indicadores de inadimplência. Os números presentes nesse artigo podem servir como parâmetros.


  • Replicar a projeção dos cenários no fluxo de caixa da IES. A simplificação é importante, ainda mais nesse momento que a informação precisa ser avaliada com celeridades, mas talvez seja importante desmembrar essa informação por campus, curso etc.


  • Caso os reflexos da taxa de desemprego não tenham sido apresentados na inadimplência, de forma conservador, vale aplicar a mesma variação nos índices da IES. Desta forma, evita-se surpresas futuras.


  • O acompanhamento da evolução dos casos de infecção do COVID-19 e deliberações dos governos estaduais se faz bastante importante, pois pode antecipar estratégias para retorno as atividades.


  • Comunicação contínua com os alunos. Deixar de posicionar os alunos, pode levar a tomadas de decisão por parte dos clientes desfavoráveis para as IES. Estar próximo dos alunos nesse momento é extremamente importante.


  • Tratar todos os alunos com a sua particularidade e de forma preventiva. Nesse momento, aguardar os clientes se manifestarem, podem ser muito prejudiciais para todos os agentes. Sabemos que muitas IES não possuem time para realizar esse atendimento devido ao volume, mas talvez encontrar um parceiro, possa auxiliar.


  • Existirá um grupo de clientes que não necessitariam de descontos, mas se demonstrarão inclinados a necessidade, devido a uma consequência do período. Este é mais um motivo para que se faça um trabalho unitário e humanizado.


  • Segmentar os alunos e desenhar ofertas para cada grupo de clientes (clusters). Este ponto facilitará no momento da conversa direta com o aluno.


  • Revisar a régua de cobrança diferenciada para o momento de crise. Não aguardar um tempo excessivo após o aluno estar inadimplência, para realizar um acionamento. Contatos via SMS, e-mail e ligação são ainda mais importantes em todos os momentos, inclusive preventivos.


  • Classificar todos os alunos da IES e atuar de forma preventiva nos alunos com maior probabilidade de inadimplência futura. Modelos preditivos ajudam muito na aderência de estratégias.


  • Seguro educacional ou prestamistas são importantes para mitigação de inadimplência.


  • Realizar incentivos financeiros (descontos) para pontualidades, ainda é um trunfo para garantir a adimplência dos clientes.


  • Implantar financiamento estudantil auxilia na antecipação de recebíveis para alunos novos.


  • Venda de carteira e antecipação de recebíveis podem ser uma saída, mas cabe atenção as taxas de desconto de cada instituição financeira.


Seria possível continuarmos discorrendo sobre as alternativas que poderiam ser adotadas nesse momento, mas nosso objetivo aqui foi apenas organizar um pouco a informação que está sendo divulgada. Estamos sempre à disposição para auxiliar as instituições de ensino superior a adotarem as estratégias mais assertivas ao cenário particular. Deixo nesse link a disponibilidade da minha agenda, caso queira agendar um horário para falarmos sobre os desafios da sua IES.


Fontes:











#covid #covid19 #coronavirus #ensinosuperior #inadimplencia #inadimplenciaensinosuperior

InovaMo, pioneira em levar analytics para o setor de Educação, especialmente para o Ensino Superior. Vencedora do prêmio Digital Transformation Lab (DTL)/Hackathon promovido pela Microsoft ao Grupo Ânima e uma das finalistas para o Demo Day da WeWork Labs. Primeira e única parceira sobre Big Data da maior organização das Instituições de Ensino Superior do Brasil. Especialista em levantar insights, fazer previsões e empoderar os clientes com suas aplicações tecnológicas. Seus dados estão dizendo algo sobre você. A gente te ajuda! Clique aqui para receber novas comunicações da InovaMo.


Acesse aqui entenda melhor sobre os produtos da InovaMo.


Inteligência Artificial: algoritmos capazes de prever eventos antes de ocorrerem para Evasão, Captação e Inadimplência. Desta forma, torna-se possível adotar estratégias preventivas e melhorar os indicadores.


Presença Digital: Solução em que o processo de chamada é simplificado, pois os alunos registram a frequência através dos próprios celulares. Esta é uma excelente ferramenta de fidelização, pois trabalha o engajamento dos alunos para as aulas presenciais, bem como gerador de dados comportamentais e facilitador do processo de registro de presença, etc.

355 visualizações

© 2020 INOVAMO - Construindo decisões inovadoras